Por que o SUS negou o Kyntheum?
O SUS tem regras específicas para disponibilizar medicamentos de alto custo. Quando a negativa acontece, alguns motivos são recorrentes:
- Fora do rol de procedimentos da ANS: O Rol reúne os tratamentos que o SUS deve oferecer. Se o Kyntheum ainda não está incluído, a autoridade pode negar o fornecimento.
- Medicamento de alto custo: O Kyntheum é um fármaco biológico, com preço elevado. O SUS precisa analisar a relação custo‑benefício antes de autorizar.
- Ausência de previsão contratual: O contrato do SUS com a indústria pode não prever a compra desse medicamento específico.
Entender o motivo da recusa ajuda a escolher a estratégia correta de recurso. Se a negativa foi por “fora do rol”, por exemplo, você pode usar a jurisprudência que reconhece exceções quando há comprovação de eficácia e risco de morte.
O Kyntheum é de cobertura obrigatória?
Para responder a essa pergunta, é preciso analisar três pilares: o Rol da ANS, a Lei 9.656/98 (que regula os planos de saúde) e a recente decisão do STF na ADI 7.265 (2025).
O Rol da ANS, atualizado periodicamente, contém os procedimentos e medicamentos de que o SUS tem obrigação de fornecer. Até o momento, o Kyntheum ainda não integra o rol. No entanto, a resolução da ANS prevê que medicamentos injetáveis de alta complexidade, registrados na ANVISA, podem ter cobertura automática, independentemente de estarem no rol, conforme a RN 566/2022. O Kyntheum se encaixa nessa descrição – é um medicamento biológico injetável, de alta complexidade, registrado na Anvisa.
A Lei 9.656/98 garante ao usuário de plano de saúde (e, por extensão, ao SUS como gestor único) a cobertura dos tratamentos essenciais para a preservação da vida. O texto deixa claro que a negativa só é válida quando o procedimento está expressamente excluído do rol ou quando há justificativa técnica que demonstre a impossibilidade de fornecimento.
Em setembro de 2025, o STF, na ADI 7.265, decidiu que o rol da ANS tem caráter taxativo, mas admite exceções quando cinco requisitos cumulativos são preenchidos: (i) prescrição médica fundamentada por profissional habilitado; (ii) inexistência de negativa expressa da ANS para o medicamento; (iii) demonstração de eficácia e segurança; (iv) risco de morte ou agravamento da doença; (v) ausência de alternativa terapêutica no SUS. Se você reunir esses requisitos, pode exigir o Kyntheum mesmo fora do rol.
Além disso, o STJ, ao julgar o Tema 990, já reconheceu que a negativa de procedimento não listado no rol é abusiva quando há indicação médica e comprovação de eficácia. Essa jurisprudência se aplica tanto ao SUS quanto aos planos privados.
Como recorrer da negativa do SUS?
Antes de entrar na Justiça, tente resolver a questão administrativamente. O caminho costuma ser mais rápido e menos custoso.
Dica: Guarde a carta ou o e‑mail de negativa. Ele será a prova de que o SUS recusou formalmente o Kyntheum.
- 1. Ouvidoria do SUS: Acesse o site gov.br/saude e registre a reclamação. O prazo legal para resposta é de até 15 dias úteis.
- 2. ANS – Consumidor.gov.br: Use a plataforma para abrir uma reclamação contra o SUS como fornecedor. A ANS tem até 30 dias para se manifestar.
- 3. Disque ANS (0800 701 9916): Ligue e solicite orientação sobre o procedimento de recurso.
- 4. Procon: O Procon pode intervir quando há violação do Código de Defesa do Consumidor (CDC). Registre a reclamação online no site do Procon do seu estado.
- 5. Advogado especializado: Se a resposta for negativa ou inexistente, procure um advogado. Ele pode protocolar um recurso administrativo interno ao Ministério da Saúde.
Os prazos são curtos, então não perca tempo. Se após 30 dias a resposta for desfavorável ou não houver resposta, você já tem base para a ação judicial.
Ação judicial contra o SUS: passo a passo
Quando a via administrativa falha, a justiça pode garantir o acesso ao Kyntheum. O procedimento mais usado é a ação civil pública ou individual com pedido de tutela de urgência.
Importante: O juiz pode conceder liminar que determina o fornecimento imediato do medicamento, sob pena de multa diária.
| Etapa | Prazo | O que fazer |
|---|---|---|
| Reunir documentos | Imediato | Laudo médico detalhado, receita, negativa escrita do SUS, comprovante de renda (para gratuidade de justiça) |
| Petição inicial | Até 5 dias úteis após reunir documentos | Contrate advogado ou Defensoria Pública |
| Distribuição da ação | Dia útil seguinte | Tribunal da Justiça do seu estado |
| Pedido de tutela de urgência | Na mesma petição | Justifique risco de morte ou agravamento |
| Audiência ou despacho | Em até 15 dias | Apresente provas e laudos complementares |
Documentos essenciais:
- Laudo oncológico que indique claramente a necessidade do Kyntheum.
- Receita médica com dosagem e esquema de tratamento.
- Negativa formal do SUS (carta, e‑mail ou protocolo).
- Comprovante de residência e renda (para solicitar justiça gratuita, se a renda mensal for até três vezes o salário‑mínimo).
Se o juiz conceder a liminar, o SUS será obrigado a fornecer o Kyntheum imediatamente, sob pena de multa diária que pode chegar a 1 % do valor do medicamento.
Jurisprudência favorável a pacientes oncológicos
Vários tribunais já decidiram que a recusa de medicamentos de alto custo viola o direito constitucional à saúde. Exemplos relevantes:
- STJ – REsp 1.782.123/RS: O tribunal reconheceu a obrigação de fornecer o medicamento Trastuzumab, fora do rol, por risco de vida.
- STF – ADI 7.265: Definiu exceções ao rol taxativo quando preenchidos cinco requisitos, aplicáveis ao Kyntheum.
- TJSP – Apelação 100XXXX-45.2025.8.26.0100: Determinou fornecimento de Imatinibe a paciente com leucemia, mesmo sem inclusão no rol.
Essas decisões mostram que o judiciário está atento à necessidade de garantir tratamentos essenciais, especialmente em casos de câncer. Elas dão força ao seu pedido de tutela de urgência.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que fazer se o SUS me negar o Kyntheum por “fora do rol”?
Reúna a negativa escrita, peça ao médico um laudo detalhado e abra reclamação na Ouvidoria do SUS. Se não houver resposta em 30 dias, procure um advogado para ingressar com ação judicial e solicitar tutela de urgência.
Posso receber o Kyntheum em casa ou preciso ir ao hospital?
O Kyntheum é administrado por infusão intravenosa em ambiente hospitalar ou em clínicas credenciadas. O juiz pode determinar que o SUS ofereça o serviço em unidade de saúde próxima ao seu domicílio.
Existe algum benefício financeiro enquanto aguardo a decisão judicial?
Sim. Se a sua renda mensal for até três salários‑mínimos (até R$ 4 863,00 em 2026), você pode solicitar justiça gratuita, que isenta custos de processo e honorários.
Quanto tempo leva para o juiz conceder a liminar?
O pedido de tutela de urgência é analisado em até 15 dias úteis. Em casos de risco de morte, o juiz costuma decidir ainda mais rápido.
Se eu já tenho plano de saúde privado, o Kyntheum pode ser coberto por ele?
Sim, mas o plano também pode negar com base no rol da ANS. Nesse caso, siga o mesmo caminho administrativo (ouvidoria da operadora, ANS, Procon) e, se necessário, ajuíze ação contra o plano.
Como garantir seus direitos ao Kyntheum em 2026?
Você não está sozinho. O direito à saúde é garantido pela Constituição e reforçado por leis, resoluções e decisões judiciais recentes. Se o SUS negou o Kyntheum, siga os passos: documente a negativa, recorra administrativamente, e, caso necessário, entre com ação judicial com pedido de tutela de urgência. Não deixe a burocracia impedir o tratamento que pode salvar a sua vida.
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