Crime de Concussão: Pena e Como Denunciar em 2026

Conteúdo revisado por Roberta Anabriela Ferreira Rocha, advogada — OAB/CE 55.040, em 07/07/2026
Imagem representando Concussão e Excesso de Exação — Ribeiro Cavalcante Advocacia
Breve resumo

O crime de concussão (art. 316 do CP) ocorre quando servidor público exige vantagem indevida aproveitando-se do cargo. A pena é de 2 a 12 anos de reclusão e multa, conforme Lei 13.964/2019. Diferente da corrupção passiva, aqui quem inicia a exigência é o servidor.

Essa situação angustiante é mais comum do que se imagina e tem um nome muito específico na lei penal: crime de concussão. Trata-se de uma das formas mais graves de abuso de poder dentro da administração pública, pois o funcionário se aproveita do medo do cidadão para obter uma vantagem financeira ou patrimonial indevida.

Neste artigo, vamos explicar de forma descomplicada como a lei pune essa conduta, como diferenciar esse crime de outros parecidos e, principalmente, o que você deve fazer para se proteger e denunciar o servidor abusivo sem se colocar em risco.

O que é o crime de concussão no Código Penal?

De acordo com o artigo 316 do Código Penal Brasileiro, o crime de concussão ocorre quando um funcionário público exige, para si ou para outrem, uma vantagem indevida aproveitando-se do seu cargo. A conduta se diferencia de outros crimes porque envolve imposição e pressão sobre a vítima.

Para que o crime de concussão aconteça, a palavra-chave é exigir. Essa exigência não precisa ser feita com violência física ou com uma arma na mão. O simples fato de o servidor usar a força do cargo para impor um medo sutil na vítima (“se não pagar, eu não assino”, “se não ajudar, posso fechar sua empresa”) já caracteriza o crime.

É muito comum as pessoas confundirem a concussão com outros crimes funcionais. Por exemplo, na corrupção passiva, o servidor público solicita ou apenas aceita uma vantagem indevida. Não existe aquela imposição forte ou intimidação que vemos na concussão. Já no crime de peculato, o funcionário se apropria de um bem público ou particular que ele já tinha posse por causa do cargo.

Na prática: Imagine que um policial rodoviário para o seu carro e, ao ver que um documento está vencido, diz: “Ou você me passa R$ 500 no PIX agora ou eu vou apreender seu carro e aplicar uma multa pesada”. Nesse momento, ele está exigindo uma vantagem indevida usando o poder do cargo, o que configura o crime de concussão.

Além disso, a lei prevê que o crime pode acontecer mesmo se o funcionário público estiver fora da função ou antes de assumi-la. Se ele usar a futura influência ou a autoridade do cargo que vai ocupar para fazer a exigência, o crime de concussão estará configurado da mesma forma.

Qual é a pena para o servidor que exige vantagem indevida em 2026?

A pena para o crime de concussão, conforme o artigo 316 do Código Penal com redação dada pela Lei 13.964/2019, é de reclusão de 2 a 12 anos e multa. Em 2026, com o salário mínimo fixado em R$ 1.621,00, a multa penal diária varia de R$ 54,03 a R$ 8.105,00.

A pena de prisão para quem comete esse crime é considerada bastante severa. Antes das alterações promovidas pela legislação conhecida como “Pacote Anticrime” (Lei nº 13.964), a pena era de reclusão de 2 a 8 anos. O aumento do teto para 12 anos demonstra a intenção do legislador de punir de forma exemplar o desvio de conduta ética na administração pública.

Além da pena de prisão (reclusão), o juiz aplica uma pena de multa que é calculada em “dias-multa”. O Código Penal estabelece que a quantidade de dias-multa pode variar de 10 a 360 dias. O valor de cada dia-multa é fixado pelo juiz com base na situação econômica do réu, podendo ir de um trigésimo (1/30) do salário mínimo vigente em 2026 até cinco vezes esse salário por dia.

Vejamos como funciona o cálculo prático com os valores vigentes em 2026:

Tipo de Pena Valor Mínimo (2026) Valor Máximo (2026)
Tempo de Reclusão 2 anos 12 anos
Valor do Dia-Multa R$ 54,03 R$ 8.105,00
Multa Total Acumulada R$ 540,30 (10 dias no mínimo) R$ 2.917.800,00 (360 dias no máximo)

Atenção: Além da prisão e da multa financeira calculada com base no salário mínimo de 2026 (R$ 1.621,00), o servidor público condenado criminalmente por concussão corre o risco quase certo de perder o cargo público de forma definitiva, após o trânsito em julgado da sentença, conforme as regras do artigo 92 do Código Penal.

Como denunciar o crime de concussão pela via administrativa?

Para denunciar a concussão administrativamente, você deve acionar a Ouvidoria do órgão público do servidor ou a Controladoria-Geral da União (CGU) pelo portal Fala.BR, no prazo prescricional administrativo que costuma ser de 5 anos, de acordo com a Lei 8.112/1990.

A via administrativa é um caminho muito importante porque ela inicia um Processo Administrativo Disciplinar (PAD). Esse processo pode resultar na demissão do funcionário público muito antes de o processo criminal transitar em julgado. Para fazer a denúncia com segurança, você não precisa de um advogado, mas deve tomar alguns cuidados essenciais com as provas que possui.

Se o servidor for federal (como um policial rodoviário federal ou um auditor da Receita Federal), a denúncia deve ser feita diretamente no portal unificado do Governo Federal, o Fala.BR. Se o servidor for estadual ou municipal (como um fiscal da prefeitura ou um policial militar), a denúncia deve ser direcionada para a Ouvidoria do respectivo Estado ou Município.

Ao redigir a denúncia na ouvidoria, siga este passo a passo objetivo:

  • Identificação dos fatos: Relate o dia, a hora, o local exato e o nome ou descrição física do servidor que exigiu a vantagem.
  • Descrição da exigência: Explique detalhadamente como a exigência foi feita. Escreva as palavras que ele utilizou e qual era a ameaça implícita ou explícita.
  • Anexo de provas: Insira capturas de tela (prints) de conversas de WhatsApp, e-mails recebidos, gravações de áudio ou vídeo, e indique testemunhas que presenciaram a cena.
  • Solicitação de anonimato: Se você tiver medo de represálias, as ouvidorias modernas permitem a realização de denúncias anônimas ou com restrição de acesso aos seus dados pessoais de identificação.

Vale saber: A gravação ambiental feita por um dos interlocutores (ou seja, gravar o servidor exigindo a propina sem que ele saiba que está sendo gravado) é considerada uma prova 100% legal pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Você não comete crime algum ao gravar a pessoa que está tentando extorquir você.

Como funciona o processo na Justiça contra o servidor criminoso?

O processo judicial por concussão corre na esfera criminal, iniciando-se após denúncia do Ministério Público baseada no artigo 316 do Código Penal, e pode levar anos para transitar em julgado, permitindo que a vítima também pleiteie indenização civil por danos morais e materiais.

Uma vez que você faz a denúncia na polícia ou no Ministério Público, é aberto um Inquérito Policial para apurar os fatos. A polícia colherá depoimentos e juntará as provas apresentadas por você. Sendo constatado que há indícios fortes de autoria e prova de que o crime ocorreu, o Ministério Público apresenta uma denúncia formal ao Poder Judiciário.

Vimos na nossa prática que muitas vítimas de concussão acreditam que só podem buscar seus direitos na Justiça Criminal. Isso é um equívoco comum. Além de ver o servidor punido com prisão e perda do cargo, você pode entrar com uma ação na esfera cível exigindo que o Estado (ou o Município/União) indenize você por danos morais e materiais decorrentes do abuso sofrido.

Conforme determina o artigo 37, parágrafo 6º, da Constituição Federal , o Estado responde de forma objetiva pelos danos que seus agentes causarem a terceiros. Ou seja, se o fiscal causou um prejuízo financeiro a você exigindo dinheiro, o ente público ao qual ele pertence tem o dever de devolver os valores e compensar o sofrimento emocional que você suportou.

Se você não tiver recursos financeiros para arcar com custas de um processo de indenização, é possível solicitar o benefício da gratuidade de justiça no início da ação civil. Para isso, basta comprovar que o pagamento das taxas judiciais comprometeria o sustento da sua família.

Decisões da Justiça que protegem as vítimas de concussão

O Superior Tribunal de Justiça (STJ), em decisões como no HC 205.700, reafirma que o crime de concussão se consuma no exato momento da exigência da vantagem indevida, dispensando o recebimento efetivo do dinheiro pelo servidor público para a punição penal de 2 a 12 anos.

Isso significa que, juridicamente, a concussão é classificada como um “crime formal”. Se o servidor exigiu a vantagem, mas você se recusou a pagar e foi direto denunciá-lo à polícia, ele já cometeu o crime de forma completa. O fato de ele não ter colocado as mãos no dinheiro não diminui a gravidade do ato nem reduz a sua punição penal.

Outro exemplo importante na jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é encontrado no julgamento do HC 215.817. Nessa decisão, os ministros deixaram claro que, mesmo se a exigência do servidor for disfarçada de “ajuda” ou de “taxa administrativa inexistente”, a intimidação implícita no cargo público é suficiente para caracterizar a concussão, protegendo a boa-fé do cidadão comum que se vê coagido.

Além das decisões das cortes superiores, a Justiça Federal (como no processo nº 0060203-83.2016.4.01.3400) tem aplicado condenações exemplares a policiais e fiscais federais que usavam barreiras de fiscalização ou vistorias aduaneiras para extorquir comerciantes e motoristas. Essas decisões reforçam a proteção do cidadão comum diante do gigantismo e da autoridade do aparato estatal.

Erros comuns que você deve evitar ao denunciar esse crime

Um erro comum é o particular pagar a vantagem indevida de forma voluntária, o que pode desconfigurar a concussão e gerar acusação de corrupção ativa sob o artigo 333 do Código Penal, cuja pena também é de 2 a 12 anos de reclusão.

Na nossa experiência profissional, observamos que, no calor do momento, o cidadão comete falhas graves por desespero. O maior erro é tentar “facilitar” as coisas oferecendo dinheiro espontaneamente antes de o funcionário público sequer sugerir qualquer irregularidade. Se a iniciativa de pagar parte de você para conseguir um benefício ilegal, você deixa de ser vítima de concussão e passa a ser autor do crime de corrupção ativa.

Erro comum: Apagar mensagens de texto ou o histórico de chamadas telefônicas por medo de que o servidor descubra que você está guardando provas. Caso você seja vítima de exigência de vantagem indevida, nunca apague as mensagens de WhatsApp. Elas são a sua maior garantia de defesa e servem para comprovar que houve coação, diferenciando a sua situação da de um cúmplice.

Outra falha recorrente é demorar para buscar ajuda ou tentar resolver a situação por conta própria fazendo ameaças ao servidor público. Isso pode fazer com que você perca prazos cruciais para a coleta de provas (como imagens de câmeras de segurança públicas que são apagadas a cada 30 dias) ou acabe respondendo pelo crime de coação no curso do processo.

Se você realizou algum pagamento de urgência por PIX sob severa ameaça do servidor, siga os procedimentos de segurança digital para registrar o rastro bancário o mais rápido possível, de maneira semelhante aos cuidados tomados em golpes financeiros tradicionais, como explicamos em nosso artigo sobre como recuperar dinheiro no Golpe do PIX.

Perguntas frequentes sobre concussão e exigência de propina

Qual a diferença real entre concussão e corrupção passiva?

A diferença essencial está na atitude do servidor público. Na concussão (artigo 316 do Código Penal), o funcionário público exige a vantagem indevida, impondo uma pressão psicológica ou medo na vítima para que ela pague. Na corrupção passiva (artigo 317), o servidor apenas solicita (pede de forma amigável ou sutil), recebe ou aceita uma promessa de vantagem, sem aplicar uma imposição autoritária direta sobre o cidadão.

Se eu pagar o dinheiro exigido pelo servidor, posso ser preso?

Não, se você pagou apenas porque foi coagido pela exigência do servidor público. Na concussão, você é considerado a vítima do crime, pois sua vontade foi viciada pelo medo do poder do agente estatal. O crime é de autoria exclusiva do funcionário que fez a exigência. No entanto, se ficar provado que você ofereceu o dinheiro por iniciativa própria para obter vantagem ilícita, responderá pelo crime de corrupção ativa.

Eu posso gravar a conversa com o fiscal sem ele saber?

Sim. A gravação telefônica ou ambiental realizada por um dos participantes da conversa, sem o conhecimento do outro, é considerada um meio de prova perfeitamente lícito pela jurisprudência pacífica do Supremo Tribunal Federal (STF). Você tem o direito de gravar o diálogo para comprovar que está sendo vítima de uma exigência criminosa e se defender perante a Justiça.

O que acontece se o crime for cometido por um funcionário de empresa terceirizada?

Para fins penais, conforme o artigo 327 do Código Penal, qualquer pessoa que exerça cargo, emprego ou função pública, mesmo que temporariamente ou sem remuneração, é considerada funcionária pública. Isso inclui trabalhadores de concessionárias de serviços públicos e empregados de empresas terceirizadas contratadas pelo governo. Portanto, eles também respondem pelo crime de concussão se exigirem vantagem indevida no exercício da função.

Qual o prazo máximo para a polícia investigar e punir esse crime?

Como a pena máxima do crime de concussão é de 12 anos de reclusão (conforme redação dada pela Lei 13.964/2019), o prazo de prescrição criminal é de 16 anos, segundo as regras do artigo 109 do Código Penal. Esse é o limite de tempo que o Estado possui para concluir as investigações, processar, julgar e aplicar a pena ao servidor público criminoso antes de perder o direito de puni-lo.

Como agir em casos de concussão do servidor em 2026

Em 2026, para combater a concussão sob as regras do Código Penal, a vítima deve reunir provas materiais imediatamente, como mensagens ou gravações de áudio, e buscar suporte jurídico especializado para formalizar a denúncia com segurança jurídica e proteção contra retaliações.

Enfrentar o abuso de autoridade exige calma e estratégia. O primeiro passo prático é não ceder à pressão imediata: peça tempo para conseguir o dinheiro exigido e aproveite esse intervalo para registrar prints de conversas, e-mails ou gravar os telefonemas do servidor abusivo. Em seguida, procure assessoria jurídica para estruturar a denúncia criminal e proteger os seus direitos de forma segura.

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