Troca em loja física: quando a loja é obrigada a trocar

Conteúdo revisado por Lucas Ribeiro Cavalcante, advogado — OAB/CE 44.673, em 26/10/2026
Balcão de loja com tablet de vendas, impressora de recibos, garrafas e um vaso de flores ao fundo. — Foto: Tom Tillhub
Breve resumo

A loja física só é obrigada a trocar quando o produto tem vício ou defeito, nos termos do art. 18 do CDC, com prazo de 30 dias para o reparo. Se você apenas não gostou do produto, a troca depende da política da loja, porque o direito de arrependimento de 7 dias (art. 49) vale só para compras fora do estabelecimento.

O erro que mais custa dinheiro em troca de loja física é este: a pessoa compra uma roupa, uma panela, um fone, chega em casa, não gosta, e volta à loja no quinto dia dizendo “tenho 7 dias por lei”. O vendedor nega. Ela insiste, discute, pede o gerente, sai de lá com raiva e com o produto na sacola. E perde tempo que deveria ter usado em outra coisa, porque nesse caso ela realmente não tinha o direito.

Os 7 dias de arrependimento do artigo 49 do Código de Defesa do Consumidor valem para compra feita fora da loja: internet, telefone, catálogo, WhatsApp, vendedor na porta de casa. Em loja física, onde você viu, pegou e experimentou o produto, não existe arrependimento legal. O que existe é política de troca da loja, que é outra coisa.

Agora, o lado que quase ninguém usa bem: quando o produto tem defeito, a loja física é obrigada a resolver, e aí quem escolhe a solução, em determinada situação, é você. Não o gerente. O problema é que esse pedido costuma ser derrubado por falha de prova: a pessoa não pediu protocolo, não guardou a ordem de serviço, deixou passar o prazo do artigo 26 ou aceitou “voucher” quando podia exigir dinheiro.

Este artigo mostra exatamente onde a troca é obrigatória, onde não é, e o que precisa estar no papel para a loja não conseguir empurrar você com a frase “aqui a gente não troca”.

A loja física é obrigada a trocar produto que eu simplesmente não gostei?

Não. Produto sem defeito comprado em loja física não gera direito de troca. O prazo de 7 dias do art. 49 do CDC existe apenas para compra feita fora do estabelecimento (online, telefone, catálogo). Se a loja troca por tamanho, cor ou “não gostei”, isso é cortesia comercial dela, não obrigação legal.

A lógica da lei é simples. O arrependimento foi criado porque, comprando pela internet, você não tocou no produto. Na loja, você viu, provou, mediu, ligou na tomada da bancada. A chance de surpresa é bem menor, então o legislador não deu o direito de desistir.

Na prática: imagine um tênis de R$ 349,90. Comprado na loja do shopping, cor errada, produto perfeito: a loja não é obrigada a nada. O mesmo tênis comprado no site da loja, R$ 349,90 mais R$ 29,90 de frete, devolvido no sexto dia: a loja tem que devolver os R$ 379,80 e ainda bancar o custo da devolução, conforme o art. 49 do CDC.

Existe uma exceção importante dentro dessa regra, e ela se chama oferta. Se a loja anunciou troca, no cartaz da vitrine, na etiqueta (“troca em até 30 dias”), no site ou na voz do vendedor, essa promessa vincula. O art. 30 do CDC diz que toda informação ou publicidade suficientemente precisa obriga o fornecedor e integra o contrato. Ou seja: a política de troca não é obrigatória por lei, mas depois de anunciada ela passa a obrigar.

É por isso que vale fotografar o cartaz e guardar a etiqueta. Se o gerente mudar de opinião no dia da troca, o papel na sua mão é que vale. Você pode conferir o texto integral da lei no portal oficial, no Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/90) .

Quando a loja física é obrigada a trocar por lei?

A obrigação nasce quando o produto tem vício (defeito). Pelo art. 26 do CDC, você tem 30 dias para reclamar de produto não durável e 90 dias para durável, contados da entrega. E pelo art. 18, §1º, se a loja não consertar em 30 dias, a escolha entre troca, dinheiro de volta ou desconto é sua.

Essas são as situações em que a loja não tem como escapar:

  • Defeito aparente: a liquidificadora não liga, a camisa veio com costura aberta, o celular não carrega. Reclame dentro de 30 dias (não durável) ou 90 dias (durável).
  • Defeito oculto: o prazo só começa a correr quando o problema aparece (art. 26, §3º). Compressor de geladeira que falha no oitavo mês abre 90 dias novos a contar daquele dia.
  • Defeito não resolvido em 30 dias: levou para a assistência, passou um mês, não voltou consertado. Aí você escolhe: produto novo igual, devolução imediata do valor pago com correção, ou abatimento no preço.
  • Produto essencial: geladeira, fogão, cadeirinha de bebê, equipamento médico, celular de quem trabalha com ele. O art. 18, §3º permite exigir a solução na hora, sem esperar os 30 dias.
  • Produto em promoção com defeito: a lei não distingue preço cheio de preço baixo. Cartaz dizendo “produto em liquidação não tem troca nem garantia” não vale contra defeito de funcionamento.
  • Produto diferente do anunciado: veio outra voltagem, outra capacidade, outro modelo. Aqui é descumprimento de oferta, art. 30, e o pedido é de entrega do que foi prometido.

Fique atento: os 30 dias de conserto do art. 18, §1º são corridos, não úteis, e contam da data em que você entregou o produto, não da data em que a assistência decidiu abrir a ordem de serviço. Por isso o comprovante de entrada, com data, é o documento mais importante do caso.

Se a sua dúvida é especificamente sobre contagem de dias, vale ler nosso texto sobre prazo para reclamar produto com defeito, 30 ou 90 dias.

Guardar comprovantes, prints e protocolos de atendimento é o que transforma uma reclamação em um caso bem instruído. No conflito de consumo, quem documenta a relação parte na frente.

Lucas Ribeiro Cavalcante, advogado (OAB/CE 44.673)

Posso exigir troca na hora ou a loja pode mandar para a assistência?

Como regra, a loja pode mandar para a assistência técnica e tem 30 dias corridos para consertar (art. 18, §1º do CDC). Só que o art. 18, §3º abre exceções: produto essencial, produto de valor elevado ou conserto que reduza o valor do bem permitem exigir troca, devolução ou abatimento imediatamente.

É aqui que a conversa no balcão esquenta. O vendedor vai dizer: “senhor, nós somos só o ponto de venda, a garantia é do fabricante, leve na assistência”. Essa frase é parcialmente errada. O art. 18 do CDC fala em responsabilidade solidária dos fornecedores. Quem vendeu responde junto com quem fabricou. Você escolhe contra quem reclamar.

O que a loja consegue fazer legitimamente é usar o prazo de conserto. Enquanto os 30 dias estão correndo, ela não está em falta. Tentar forçar a troca no quinto dia de um produto não essencial, e tratar a recusa como abuso, é o caminho mais rápido para um pedido ser indeferido.

O argumento mais forte da loja (e como ele cai)

Vale enfrentar a melhor defesa do outro lado, não a pior. A loja bem orientada não diz “não troco”. Ela diz o seguinte: “o CDC me deu o direito de sanar o vício em 30 dias; o consumidor não me entregou o produto para conserto, levou direto a um técnico de rua, abriu o aparelho, perdeu o lacre e agora quer dinheiro de volta. Não houve recusa minha, houve impedimento dele. E o laudo que ele traz é de técnico não autorizado”.

Esse argumento é bom. E vence com frequência. Porque o art. 18 realmente dá ao fornecedor a oportunidade de consertar, e mau uso ou intervenção de terceiro afasta a garantia.

Ele cai em um ponto só: quando existe prova de que a oportunidade de conserto foi dada e não foi cumprida. Isso significa comprovante de entrada do produto na assistência indicada, com data; a ordem de serviço; e, se possível, o laudo da própria autorizada. Com esses três papéis, o “ele não me deixou consertar” deixa de existir. Sem eles, a discussão vira versão contra versão, e quem fica com o produto quebrado é você.

Em atendimento de consumo, o padrão que se repete é esse: o direito existia, o defeito era real, e o caso naufragou porque não havia nada escrito sobre a data em que o produto entrou na assistência. O balcão raramente entrega esse papel por iniciativa própria. Você tem que pedir.

Perdi a nota fiscal: a loja pode negar a troca por isso?

Não. O CDC não exige nota fiscal como condição para exercer a garantia. A nota é a prova mais fácil da compra, mas não é a única. Fatura do cartão, extrato bancário, Pix com o nome da loja, e-mail de confirmação, número de série registrado no sistema da loja e etiqueta original também servem.

Na prática, a recusa não vem nesse formato. Vem como “sem nota o sistema não deixa abrir a troca”. Resposta objetiva: peça o número do protocolo de atendimento e o nome de quem atendeu. Essa frase muda o tom da conversa, porque o protocolo transforma uma negativa verbal em registro interno.

Dica de ouro: fotografe a nota fiscal no dia da compra e salve no celular ou no e-mail. Papel térmico de cupom desbota em poucos meses e, com ele, desaparece a data que define se você está nos 90 dias ou fora deles.

Outra negativa frequente: “a embalagem foi aberta, não posso mais trocar”. Para produto com defeito, embalagem aberta é irrelevante. Como você descobriria o defeito sem abrir? Essa exigência só faz sentido em troca por cortesia, onde a loja define as próprias regras, e aí ela pode exigir etiqueta, caixa e prazo que quiser, desde que tenha informado antes.

Troca obrigatória x troca por cortesia: qual caminho seguir

A escolha do caminho depende de uma pergunta só: o produto tem defeito? Se tem, você está na troca obrigatória do art. 18, com prazos de 30 ou 90 dias e possibilidade de dinheiro de volta. Se não tem, você está na política da loja, que pode exigir etiqueta, embalagem e prazo próprio.

SituaçãoA loja é obrigada?PrazoO que você precisa ter
Produto com defeito em loja físicaSim (art. 18 CDC)30 dias (não durável) ou 90 dias (durável) para reclamar; 30 dias corridos para consertoProva da compra e comprovante de entrada na assistência
Produto perfeito, “não gostei”NãoSó o prazo da política da lojaEtiqueta, embalagem e, se houver, o cartaz anunciado
Troca prometida em cartaz ou etiquetaSim (art. 30 CDC, oferta vincula)O prazo que a própria loja anunciouFoto do cartaz, etiqueta, print do site
Compra online ou por WhatsAppSim, arrependimento7 dias corridos do recebimento (art. 49 CDC)Pedido, comprovante de entrega, e-mail de desistência
Produto essencial com defeito (geladeira, fogão)Sim, solução imediata (art. 18, §3º)Sem esperar os 30 diasProva da compra e registro escrito da recusa da loja

Para o caminho de compra pela internet, com regras bem diferentes, veja como exigir reembolso em compras online. E se quiser a visão geral do tema, incluindo devolução com dinheiro de volta, leia devolução de produto: como funciona em 2026.

Cuidado: se você aceitar um vale-troca ou crédito na loja assinando um termo de “quitação” ou “nada mais a reclamar”, perde o direito de exigir o dinheiro depois, mesmo que a lei permitisse devolução integral. Leia o que está assinando antes de pegar o voucher.

Passo a passo: como forçar a troca sem perder o prazo

Siga nesta ordem. O objetivo de cada etapa é produzir um documento, porque a reclamação só tem força quando a negativa da loja está registrada. O prazo mais curto aqui é de 30 dias (produto não durável) e o de conserto é de 30 dias corridos.

  • 1. Registre o defeito antes de ir à loja. Foto e vídeo mostrando o problema e a data no celular. Para eletrônico, filme a tela de erro.
  • 2. Vá à loja e peça por escrito. Diga que está reclamando de vício do produto com base no art. 18 do CDC. Peça número de protocolo. Se o atendimento for por app ou telefone, salve o print.
  • 3. Exija o comprovante de entrada. Se mandarem para a assistência, não saia de lá sem papel com data, modelo, número de série e descrição do defeito. Esse é o documento que inicia os 30 dias.
  • 4. Conte os 30 dias corridos. Marque no calendário. No dia 31, se não houve conserto, você escolhe entre produto novo, dinheiro de volta corrigido ou abatimento.
  • 5. Comunique a escolha por escrito. E-mail ou WhatsApp para a loja, dizendo qual das três opções você escolheu e o prazo que dá para cumprirem (5 dias úteis é razoável).
  • 6. Registre no Consumidor.gov e no Procon. Use o portal oficial Consumidor.gov.br, que é gerido pelo Ministério da Justiça, e procure também o Procon da sua cidade. Pela regra do portal, a empresa tem 10 dias para responder, e essa resposta vira prova.
  • 7. Só então pense em Justiça. Com os papéis dos itens 2, 3 e 6 na mão, a ação deixa de ser “versão contra versão”.

Antes de qualquer passo judicial, três documentos decidem o caso: a prova da compra (nota, fatura do cartão ou Pix), o comprovante de entrada do produto na assistência com data, e a negativa da loja por escrito ou o número do protocolo. O erro que mais derruba esses pedidos é o comprovante de entrada sem data legível ou sem descrição do defeito, porque é exatamente isso que a loja usa para dizer que nunca teve oportunidade de consertar. Se quiser, mande esses três documentos para a nossa equipe ler antes de você aceitar qualquer voucher.

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Perguntas frequentes sobre troca em loja física

Abaixo as dúvidas que sobram depois de entender a regra geral: situações de borda, que são justamente onde o pedido costuma travar no balcão.

A loja pode cobrar taxa para trocar ou devolver o dinheiro?

Em caso de defeito, não. O art. 18, §1º do CDC fala em restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada. Nada de desconto por “uso”, “depreciação” ou “taxa administrativa”. Em troca por cortesia é diferente: se a loja informou antes que cobra taxa ou que só troca por crédito, essa condição vale, porque ali ela não tem obrigação legal nenhuma e pode definir as regras. O ponto decisivo é quando a informação foi dada: condição criada no momento da troca, que não constava em cartaz, etiqueta ou contrato, não se aplica a você.

Produto de mostruário ou “última peça” tem garantia?

Tem. O CDC não cria categoria de produto sem garantia. O que a lei permite é que o vendedor informe de forma clara e específica qual é o defeito já existente, por exemplo “amassado na lateral esquerda”, e esse defeito informado por escrito na nota não pode depois ser usado como motivo de troca. Qualquer outro problema continua coberto: 90 dias para reclamar, se for durável. Peça que a descrição do defeito conhecido conste na nota fiscal. Se não constar, você está comprando um produto tratado pela lei como normal.

Comprei em loja física mas o produto foi entregue em casa. Tenho os 7 dias?

Não, porque o que define o art. 49 do CDC é o local da contratação, não o da entrega. Se você fechou a compra dentro da loja, viu o produto exposto e assinou o pedido no balcão, houve contratação presencial, e o arrependimento não se aplica, mesmo que o sofá chegue depois pelo caminhão. Situação diferente: você viu na loja, foi para casa e fechou a compra pelo WhatsApp do vendedor. Aí a contratação foi fora do estabelecimento e os 7 dias corridos valem, contados do recebimento.

A loja trocou o produto. O prazo de garantia começa de novo?

Quando há substituição por produto novo, o entendimento predominante é que o prazo recomeça, porque você passou a ter um bem novo em mãos. Guarde a nota ou o documento de troca com a nova data, pois é ele que comprova o reinício. Já no caso de conserto, o prazo de reclamação do art. 26 fica suspenso enquanto o produto está na assistência e volta a correr depois. Se o mesmo defeito reaparecer após o reparo, o entendimento dos tribunais, consultável no site do Superior Tribunal de Justiça, é de que o vício não foi sanado.

Tenho direito a indenização por danos morais se a loja negar a troca?

Não automaticamente. Simples recusa de troca, resolvida depois, geralmente é vista como descumprimento contratual, sem dano moral. O cenário muda quando há desdobramento concreto: produto essencial parado por meses (geladeira, fogão, cadeira de rodas), tratamento humilhante no balcão na frente de outros clientes, ou cobrança indevida que gerou negativação. Nesse último caso, inclusive, há discussão separada sobre score após negativação indevida. O que sustenta o pedido é a prova do desdobramento, não o incômodo da discussão.

Quanto tempo depois da compra ainda posso reclamar de um defeito oculto?

O prazo de 90 dias (durável) começa a contar do dia em que o defeito aparece, pelo art. 26, §3º do CDC, mas isso não significa prazo infinito. O limite é a vida útil esperada do produto. Uma geladeira que falha no segundo ano ainda está dentro de uma vida útil razoável; um liquidificador barato que para no sexto ano, não. Também existe o prazo geral de 5 anos para pedir reparação de danos causados por produto defeituoso. Quanto antes você reclamar após a falha, mais sólida fica a sua posição.

Como garantir seu direito de troca em loja física

A resposta curta ficou assim: sem defeito, a loja física não é obrigada a trocar, salvo se prometeu. Com defeito, é obrigada, e a partir do 31º dia sem conserto a escolha entre troca, dinheiro de volta e abatimento é sua, conforme o art. 18, §1º do CDC.

Resumo rápido: o pedido quase nunca é derrubado por falta de lei. É derrubado por falta de papel com data.

O próximo passo é físico e dá para fazer hoje. Separe três coisas: a prova da compra (nota fiscal, foto dela, fatura do cartão ou comprovante de Pix), o comprovante de entrada do produto na assistência, se houver, e qualquer registro da negativa, print de WhatsApp, e-mail ou número de protocolo do atendimento. Se a negativa veio por escrito, ela é a peça mais importante do conjunto. Depois, abra a reclamação no Consumidor.gov.br e marque no calendário o 31º dia a contar da entrada na assistência.

Se preferir conferir antes de agir, mande esses documentos pelo WhatsApp. A gente lê, diz se o caso tem base legal, aponta o que está faltando na prova e qual caminho faz sentido, administrativo ou judicial, antes de qualquer contratação.

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